por Sam
Tem evento, e tem Teahupo’o. A gente passou a semana vendo a “Besta” acordar. Onda de 10 pés, tubular, com uma força que arranca a lycra do corpo do competidor e quebra prancha como se fosse palito de sorvete. Isso não é surf de manobrinha, de aéreo pra agradar juiz. Isso é a prova final. É o oceano separando os homens dos meninos, os surfistas de verdade dos atletas de planilha.
E no meio desse caos, a gente vê a verdadeira essência do surf brasileiro. A gente viu o Yago Dora, pela primeira vez com a lycra amarela de líder, entrar na água não pra se defender, mas pra mandar. Controlou a bateria, achou um tubo profundo de 7,67 e mostrou que a liderança não pesa, inspira. Isso é atitude de quem sabe o que quer.
A gente viu o Italo Ferreira, campeão do ano passado, abrir o evento com a classe de sempre. Entubou aos 8 minutos, dominou a bateria inteira, fez o que parecia difícil parecer rotina. É a tranquilidade de quem já esteve ali e sabe que o medo é só mais uma marola.
E a gente viu a montanha-russa do João “Chumbinho” Chianca. Tomou um revés na primeira fase, foi pra repescagem. Podia ter sentido o golpe. Mas em dois minutos, achou três tubos e virou o jogo. Isso, meu amigo, é ter coração. É ter a casca grossa que só quem já tomou muita vaca na cabeça consegue criar.
Mas Teahupo’o também cobra seu preço. E cobrou caro. O Filipe Toledo, tricampeão mundial, um dos caras mais técnicos que eu já vi, foi engolido pela Besta. Uma eliminação dura, que custou a vaga dele na final. E o Miguel Pupo, quebrando prancha, sofrendo com a violência das ondas. Isso é Teahupo’o. Ela não quer saber quantos títulos você tem. Ela não se importa com seu ranking. Ela te testa. Se você não estiver 100% presente, com corpo e alma, ela te cospe pra fora.
O evento ainda não acabou. A final feminina tá definida entre duas gringas casca-grossa, e nossos caras seguem vivos nas oitavas. Mas o recado já foi dado. Em Teahupo’o, não tem meio termo. Ou você encara o drop, ou a onda te dropa. Simples assim.



