Por Riffa
Meu irmão mais velho tinha um CD do Charlie Brown Jr. que não saía do carro. Era tão arranhado que pulava em todas as músicas. E a gente não se importava. Aquele som era a nossa vida. Era a trilha sonora de cada ollie errado, cada joelho ralado, cada rolê no fim de tarde. Ver a cidade sendo transformada num set de filmagem pra contar a história do Chorão não é só legal. É pessoal.
Confesso que, quando ouvi que um ator da Globo ia viver o Chorão, eu revirei os olhos. A gente que é da rua fica com um pé atrás. Mas aí você vê as fotos. Você vê o José Loreto não só vestido de Chorão, mas ralando no skate. Treinando, caindo, se dedicando. Mandando um ollie no Ibirapuera. A gente sabe que um ollie não faz de ninguém um skatista, mas a gente também sabe reconhecer o respeito. Ele não tá ali só pra decorar umas falas. Ele tá tentando entender a alma do rolê. E isso, pra mim, já é meio caminho andado.
E o mais importante: eles entenderam. Entenderam que não dá pra contar a história do Chorão sem contar a história do skate. O carrinho não era um acessório, não era um item do figurino. Era uma extensão do corpo dele. Era o jeito que ele lia a cidade. O skate era o protagonista da vida dele, e pelo que tão mostrando, vai ser o protagonista no filme também.
Ver as gravações acontecendo nos nossos picos… no Parque da Juventude em São Vicente, nas pistas de Santos… é surreal. A cidade que ele amava, que ele colocou no mapa pra uma geração inteira, virou o cenário natural pra contar a história dele. Não é um estúdio empoeirado no Rio de Janeiro. É o asfalto de verdade, o que ele gastou roda, o que ouviu a voz dele.
Esse filme é mais do que a história de um músico. É a história da nossa cultura. É a chance de mostrar pro mundo que, para o Chorão e para todos nós, o skate é uma filosofia de vida. É a trilha sonora que a gente escolheu pra viver. E essa trilha, finalmente, voltou pra casa.

