Por Tio do Coturno
Aaah Mulheke!!!
Hoje é diferente. Não vou descer o sarrafo no “tribunal da internet” nem zoar a princesinha do festival. Hoje o alvo sou eu, é você, é a gente: o tal “mundo do rock”. Porque, se tem um assunto que atravessa a nossa história feito riff distorcido, é a porrX da depressão. O rock fala disso em letras lindas, já perdeu ídolos gigantes por causa disso… mas quando chega setembro amarelo, o que a gente faz? Silêncio. É como se o palco fosse mudo pra esse tema.
E não me venha com desculpa de “ah, não é papel da música”. A música sempre foi voz de geração, foi bandeira, foi protesto. Mas no setembro amarelo parece que o rock tira férias. Enquanto isso, a realidade continua batendo na nossa cara: Ian Curtis, Kurt Cobain, Layne Staley, Chris Cornell, Chester Bennington… todos viraram cicatriz na nossa discografia. Aqui no Brasil, o buraco não é menor: Chorão se foi em 2013 e, no mesmo ano, o Champignon que também compôs tantos sucessos do Charlie Brown Jr, e que também tirou a própria vida. Uma banda que foi trilha de adolescência inteira virou retrato da tragédia.
E olha que ironia: a gente canta letras que parecem manual de setembro amarelo sem perceber.
- Linkin Park — “I’ve become so numb, I can’t feel you there” (Eu me tornei tão insensível, não consigo mais sentir você).
- Nirvana — “Come as you are, as you were” (Venha como você é, como você era).
- Joy Division — “Love will tear us apart” (O amor vai nos despedaçar).
- Soundgarden — “Black hole sun, won’t you come” (Sol buraco-negro, por favor venha).
É tudo sobre vazio, sobre dor, sobre pedir ajuda sem dizer “me ajuda”. A gente canta, chora, faz tatuagem da letra… mas na hora de agir, de levantar a bandeira na rede social ou parar o show por cinco minutos pra dizer “procure ajuda”, todo mundo some.
Aaah Mulheke!!!
Tá na hora de parar de fingir que isso não é problema nosso. Se a gente lota estádio pra berrar “protesto contra o sistema”, dá também pra usar o mesmo microfone e dizer: “se tá pesado demais, fala com alguém, não carrega sozinho”.
E se você que tá lendo tá nessa, com a cabeça girando no modo repeat de música ruim: liga no 188. É gratuito, é sigiloso, é 24h. Fala com um amigo, com a família, mas não fica na tua.
O rock já salvou gente com uma música. Pode salvar de novo com uma atitude.
Aaah Mulheke!!!

