por Adenilson
Tem dia que eu saio com a bike e parece que o mundo inteiro tá dizendo: “aqui não”. A ciclovia não serve pra manobra, o estacionamento é cheio de segurança gritando, a praça virou reduto dos skatistas e dos patins, e a gente fica ali — no meio, tentando achar um canto pra girar o guidão sem ouvir sermão.
A verdade é dura: quem anda de BMX vive no limbo. A ciclovia foi feita pra pedal leve, pra quem quer ir de A pra B. E tá tudo certo, esse é o propósito dela. Só que a gente não tá ali pra passeio. A gente precisa de obstáculo, de espaço pra saltar, de lugar pra errar e tentar de novo. E isso não existe nas faixas vermelhas pintadas na beira da avenida.
Então a gente vai atrás de outro pico. Só que aí vem a treta: o espaço que parece ideal já tem dono. E, sinceramente, não dá pra fingir que não existe rivalidade. Muita pista é território fechado — dominado por skatistas ou patinadores que olham torto quando vêem uma bike chegando. Já ouvi de tudo: “vai quebrar a rampa”, “vocês ocupam demais”, “a bike atrapalha”. Só que o respeito devia vir antes da treta.
Eu não tô aqui pra tirar o espaço de ninguém. Tô aqui pra dividir. A rua sempre foi de todos. Cada um tem seu estilo, sua história, seu risco. O concreto aguenta todo mundo. O que falta é bom senso e diálogo.
Enquanto isso, a gente vai se virando. O pico improvisado na praça, o canto escondido atrás do ginásio, o pedaço de calçada que virou manual pad. É o BMX resistindo onde dá, como sempre foi. Porque se a cidade não nos oferece espaço, a gente cria o nosso — nem que seja no pedaço de chão que sobrou.
Um dia, talvez, alguém entenda que o BMX não é ameaça. É cultura, é arte, é movimento. Até lá, seguimos girando o guidão, desviando dos carros, dos olhares tortos e das placas de “proibido”.
No fim, é cair, levantar, repetir… e mandar um tailwhip no sistema.

