por Adenilson
Antes de ter oficina, ferramenta e até bike decente, eu tinha o quintal da minha avó. E bastava chover. Bastava a chuva cair pra transformar aquele pedaço de terra em nosso campo de batalha.
Era lama até o tornozelo, pneu escorregando, corrente pulando. A gente juntava tábuas velhas, tijolo, caibro torto — qualquer coisa virava obstáculo. A rua era o limite da imaginação. A gente não sabia o nome das manobras, mas sabia a sensação de voar, mesmo que fosse por dois segundos e meio antes de cair de cara no barro.
E quando caía, ninguém reclamava. Era risada, era desafio, era amizade. O quintal da vó virava pista, oficina e arquibancada tudo junto. Ela ficava na varanda gritando “vocês vão acabar com o meu jardim!”, e a gente respondia com um “só mais uma volta, vó!” que sempre virava dez.
Naquela época, a bike era um milagre feito de ferro, fita isolante e boa vontade. A coroa empenada, o banco rasgado, o pneu remendado. Mas nada disso importava. A gente só queria sentir o barro voar quando o pneu girava rápido demais. Aquele cheiro de terra molhada e graxa é o perfume da minha infância.
Hoje, quando vejo uma molecada de bike elétrica ou discutindo sobre o melhor aro, eu lembro da gente — pés descalços, dentes sujos de barro e alma limpa. A gente não tinha pista, nem grana, nem equipamento. Mas tinha algo que vale mais: vontade de brincar até o corpo pedir pausa.
Talvez seja por isso que até hoje, quando o céu fecha e o cheiro de chuva sobe, eu sinto aquela mesma vontade de sair pro quintal da vó e fazer bagunça. Porque foi ali, entre a lama e as risadas, que nasceu o amor que carrego no guidão até hoje.
No fim, é cair, levantar, repetir… e mandar um tailwhip no sistema.

