por Lorena
Toda vez que eu posto um vídeo novo, meu celular vibra minutos depois.
“Lorena, pelo amor de Deus, você vai se machucar.”
É a voz da minha avó.
A mulher que me criou. Que me ensinou a respeitar a rua, a atravessar olhando pros dois lados e, acima de tudo, a voltar inteira pra casa.
O Parkour, pra ela, é um bicho estranho. Ela entende o movimento, mas não entende a razão. E, sinceramente, eu também demorei pra entender o medo dela.
Hoje, morando a dezenas de quilômetros de distância, eu percebo: o que ela teme não é o salto em si. É o que o salto representa — a minha liberdade.
A gente cresce acreditando que coragem é o oposto do medo. Mas com o tempo, aprendi que os dois andam de mãos dadas.
A minha coragem nasceu do medo dela. Cada vez que ela dizia “cuidado, menina!”, eu aprendia a cair melhor, a rolar mais baixo, a medir o impulso antes do salto.
Foi o amor dela que me ensinou técnica — sem nunca ter subido num muro.
Esses dias, mandei um vídeo curto: eu fazendo uma linha limpa, rolamento, salto de precisão e descida suave.
Ela respondeu com um áudio:
“Ficou bonito, mas promete que não vai fazer essas loucuras sozinha.”
A voz tremia entre orgulho e preocupação.
E eu percebi que esse é o salto invisível que a gente precisa aprender a fazer: o de respeitar o medo de quem nos ama, sem deixar que ele nos paralise.
A avó que me ensinou a ficar no chão agora me inspira a voar com mais cuidado.
Ela ainda não entende o Parkour — mas entende o que ele fez comigo.
E talvez isso seja o suficiente.
Porque, no fim, o Parkour não é sobre desafiar a gravidade.
É sobre equilibrar amor e liberdade.
E cada chamada da minha avó é um lembrete de que eu ainda tenho pra quem voltar.

