Desvendando as histórias reais de alienação e dor por trás do hit que o mundo inteiro cantou sem entender.
Em meados dos anos 90, uma canção invadiu as rádios e a MTV com uma sonoridade que não se parecia com nada. Não era grunge, não era pop punk. Era uma balada folk, guiada por um violão e, acima de tudo, por uma voz barítona incrivelmente profunda, quase solene. A música contava pequenas e peculiares histórias sobre crianças, mas o que realmente a tornou um fenômeno foi seu refrão: um zumbido, um murmúrio, um simples “Mmm Mmm Mmm Mmm”.
A letra era um quebra-cabeça. Um menino que sofre um acidente de carro e seu cabelo fica branco? Uma menina que se recusa a se trocar com as outras por ter marcas de nascença pelo corpo? Um garoto cujos pais o arrastam para uma igreja onde eles “se sacodem e se contorcem”? O que conectava essas histórias aparentemente aleatórias? E por que o refrão era apenas… um som? Seria preguiça do compositor ou algo muito mais profundo?
A banda eram os canadenses Crash Test Dummies. A música, o onipresente e inesquecível hit “Mmm Mmm Mmm Mmm”. E ela não é uma canção bizarra sobre esquisitices. É um dos retratos mais sensíveis e melancólicos sobre a alienação na infância e a dificuldade de colocar a dor em palavras.
O compositor Brad Roberts escreveu cada verso baseado em histórias e observações reais sobre como as crianças podem ser isoladas por coisas que estão totalmente fora de seu controle. A música é uma coleção de pequenos dramas infantis.
Once there was this kid who got into an accident and couldn’t come to schoolBut when he finally came back his hair had turned from black into bright white
(Uma vez havia um garoto que sofreu um acidente e não pôde ir à escola)(Mas quando ele finalmente voltou, seu cabelo tinha mudado de preto para um branco brilhante)
Essa estrofe fala sobre trauma físico. A mudança drástica na aparência do menino o marca, o diferencia dos outros. Ele se torna “o garoto do cabelo branco”, um estranho, isolado por uma tragédia que ele não causou.
Once there was this girl who wouldn’t go and change with the girls in the change roomBut when they finally made her, they saw birthmarks all over her body
(Uma vez havia uma garota que não ia se trocar com as outras meninas no vestiário)(Mas quando finalmente a forçaram, elas viram marcas de nascença por todo o seu corpo)
Aqui, o tema é a vergonha do corpo e a crueldade infantil. A menina se esconde para evitar o julgamento e o bullying. Sua condição a impede de participar de atividades normais e a isola socialmente.
But both the girl and boy were glad ‘cause one kid had it worse than that‘Cause then there was this boy whose parents made him come directly home right after school
(Mas tanto a garota quanto o garoto ficaram felizes, porque um garoto estava em uma situação ainda pior)(Porque havia este menino cujos pais o faziam ir direto para casa depois da escola)
A música faz uma ponte irônica, dizendo que os dois primeiros casos eram “melhores” do que o terceiro. Aqui, a alienação não é física, mas sim familiar e cultural.
And when they went to their church they shook and lurched all over the church floor
(E quando eles iam para a igreja, eles se sacudiam e se contorciam por todo o chão da igreja)
Este garoto é isolado por um ambiente familiar controlador e por práticas religiosas que são vistas como estranhas pela comunidade. Sua “esquisitice” é imposta pelos pais, tornando seu isolamento ainda mais complexo, pois ele não pode escapar de sua própria casa.
E o famoso “Mmm Mmm Mmm Mmm”? Este é o verdadeiro golpe de gênio da canção. O murmúrio não é falta de letra. Ele representa a incapacidade de verbalizar, de encontrar palavras para consolar ou entender a dor do outro. Diante do trauma físico de um, da vergonha do corpo de outra e do isolamento familiar de um terceiro, o que se pode dizer? Às vezes, nada. O zumbido é o som da empatia silenciosa, o reconhecimento de uma dor que está além da explicação.
“Mmm Mmm Mmm Mmm” não é uma música esquisita. É um hino para todos que já se sentiram diferentes, deslocados ou marcados na infância. É a prova de que, às vezes, a música mais poderosa é aquela que entende que, para certas dores, não existem palavras.
E aí, curtiu a história? Deixe nos comentários qual clássico do rock você quer ver desvendado na nossa próxima coluna!

But both the girl and boy were glad ‘cause one kid had it worse than that‘Cause then there was this boy whose parents made him come directly home right after school
