O ano é 1968. O rock psicodélico estava no auge, mas uma banda canadense-americana decidiu acelerar o ritmo. Eles lançaram uma faixa que começava com um riff sujo, acelerado, que imitava o som de um motor ligando. A letra era um convite para a aventura: “Coloque seu motor para funcionar, caia na estrada”.
Essa música se tornou, instantaneamente, a trilha sonora oficial da rebeldia e da liberdade. Quando foi usada na cena de abertura de um filme lendário sobre motociclistas cruzando a América, ela cimentou sua imagem para sempre. Hoje, é impossível ouvir seus acordes sem imaginar uma jaqueta de couro e o vento no rosto.
Mas além de ser um sucesso cultural, essa música carrega uma distinção histórica que pouca gente percebe. Em um de seus versos, o vocalista canta uma expressão de três palavras que, anos depois, viraria o nome de todo um estilo de vida e de música.
A banda é o Steppenwolf. O hino, a imortal “Born to Be Wild”. E a expressão que ela trouxe ao mundo foi “Heavy Metal Thunder” (Trovão de Metal Pesado).
Embora a sonoridade do Steppenwolf fosse hard rock, a letra de “Born to Be Wild” contém a semente linguística do gênero que viria a dominar o mundo. No segundo verso, John Kay canta:
I like smoke and lightningHeavy metal thunderRacin’ with the windAnd the feelin’ that I’m under
(Eu gosto de fumaça e relâmpago)(Trovão de metal pesado)(Correndo com o vento)(E a sensação em que estou)
Foi a primeira vez que o termo “heavy metal” foi usado em uma canção de rock. Embora a expressão já existisse na literatura (o escritor William Burroughs a usou), foi essa música que a associou para sempre ao barulho, à distorção e à potência sonora.
A ironia deliciosa dessa história é a inspiração original. A música não foi escrita pelo vocalista John Kay, mas por Mars Bonfire, irmão do baterista da banda. E Mars não era um motociclista fora da lei.
Ele escreveu a música como uma balada folk melancólica (sim, acredite!) sobre o seu carro: um Ford Falcon usado. Ele estava andando por Hollywood Boulevard quando viu um pôster de uma motocicleta rasgando a terra e pensou: “É assim que eu me sinto no meu carro”. A sensação de liberdade que ele descreve na letra era sobre dirigir seu Ford velho, não uma Harley-Davidson.
A banda pegou a balada folk de Mars, acelerou o tempo, adicionou distorção e a transformou no monstro de rock que conhecemos.
A música explodiu de verdade quando Peter Fonda a escolheu para o filme Easy Rider (Sem Destino), de 1969. Curiosamente, “Born to Be Wild” era apenas um “tapa-buraco”. Fonda queria usar músicas de Crosby, Stills & Nash, mas não conseguiu os direitos. Ele deixou a faixa do Steppenwolf no filme “temporariamente”, mas ela encaixou tão perfeitamente com a imagem das motos na estrada que se tornou impossível tirá-la.
Assim, uma música sobre um Ford Falcon, com um termo literário obscuro, tornou-se o hino definitivo das motocicletas e batizou o gênero mais pesado da Terra.
E aí, curtiu a história? Deixe nos comentários qual clássico do rock você quer ver desvendado na nossa próxima coluna!

