Por Mister G
Como um duo mascarado do Québec conquistou a internet com guitarra e baixo double neck, microtonais, loops insanos e uma performance que desafia qualquer lógica musical
Faaala Xrockers do Brasil!
De vez em quando surge uma banda capaz de fazer a gente parar tudo, aumentar o volume e se perguntar: que diabos é isso que eu estou ouvindo? Foi exatamente essa sensação que tomou conta da internet no início de 2026 quando um vídeo começou a circular mostrando dois músicos mascarados, vestidos com roupas cheias de bolinhas, executando um rock instrumental completamente fora do comum.
O nome da dupla é Angine de Poitrine (pronúncia em francês mais ou menos assim: Ângin de Poatrin — expressão que significa “angina pectoris”, ou angina de peito). O projeto nasceu na região de Saguenay, no Québec, Canadá, e é formado pelos músicos que utilizam os pseudônimos Khn de Poitrine e Klek de Poitrine. A proposta mistura rock experimental, math rock e microtonalidade em apresentações altamente técnicas e teatrais, combinando instrumentos incomuns, loops gravados ao vivo e ritmos complexos que fogem totalmente do padrão tradicional do gênero.
O momento que colocou o grupo no radar internacional aconteceu durante uma apresentação gravada para a rádio independente KEXP, uma das maiores vitrines de música alternativa do planeta. A sessão foi registrada em 4 de dezembro de 2025, durante o festival Trans Musicales, em Rennes, na França, e publicada online em fevereiro de 2026. Em poucas semanas, a gravação começou a se espalhar pelas redes, despertando curiosidade entre músicos, críticos e ouvintes em diferentes partes do mundo.
Antes de entrar em mais detalhes sobre essa história, vale conferir o vídeo que deu origem a toda essa curiosidade.
Aviso aos curiosos: este vídeo pode causar dois efeitos colaterais bem comuns: primeiro você pensa “o que está acontecendo?”. Cinco minutos depois: “como assim esse vídeo tem quatro horas?”.
Na sessão, o duo executa faixas como Sarniezz, Mata Zyklek, Fabienk e Sherpa, revelando toda a intensidade e complexidade do seu rock instrumental microtonal.
No momento da redação deste artigo, a apresentação já ultrapassa aproximadamente 3.1 mi de visualizações, acumulando mais de 130 mil curtidas e +19 mil comentários, muitos deles de músicos e curiosos tentando entender exatamente o que está acontecendo naquele palco.
Aprofundando o assunto para os curiosos de plantão
Se o vídeo despertou sua curiosidade, vale entender melhor alguns elementos que fazem o Angine de Poitrine soar tão diferente do que estamos acostumados a ouvir no rock.
O papel do KEXP
Para quem acompanha música alternativa, o KEXP é praticamente uma instituição. A rádio independente sediada em Seattle se tornou famosa por revelar novos artistas e tendências musicais através das suas sessões Live on KEXP, gravadas tanto em estúdio quanto em festivais ao redor do mundo.
Diversas bandas ganharam visibilidade internacional depois de aparecer no programa, que hoje funciona como uma espécie de vitrine global para projetos emergentes. No caso do Angine de Poitrine, a sessão gravada durante o Trans Musicales acabou funcionando como uma porta de entrada para um público muito maior do que o circuito underground que o duo costumava frequentar.
As comparações inevitáveis
Apesar de soar extremamente original, muitos críticos tentaram explicar a proposta da banda usando algumas referências conhecidas do rock alternativo e experimental.
Entre as comparações mais citadas estão:
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- Primus, principalmente pelos grooves estranhos e pela sensação de caos controlado nas linhas rítmicas;
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- King Gizzard & the Lizard Wizard, pela exploração da microtonalidade dentro do rock moderno;
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- Buckethead, pelo virtuosismo técnico e pela abordagem instrumental da guitarra;
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- The White Stripes, pelo formato minimalista de banda, baseado apenas em guitarra e bateria.
Mesmo assim, nenhuma dessas comparações consegue capturar completamente a essência da dupla. Angine de Poitrine parece absorver elementos de várias dessas influências e reorganizá-los de maneira completamente própria.
Um som estranho… e fascinante
Grande parte do fascínio causado pela banda vem da mistura de elementos pouco comuns no rock tradicional. A música do duo combina microtonalidade, loops gravados ao vivo, ritmos assimétricos e uma performance teatral que mistura virtuosismo técnico com humor absurdo.
Outro detalhe curioso da apresentação é que o guitarrista costuma operar seus pedais de loop com os pés descalços, algo que acabou se tornando uma espécie de assinatura visual da performance.
Mas talvez o aspecto mais intrigante do som do Angine de Poitrine seja mesmo a tal da microtonalidade.
Microtonalidade: por que essa música soa tão diferente?
A música ocidental tradicional é baseada em um sistema de 12 notas por oitava, o mesmo utilizado em instrumentos como piano e guitarra. Esse modelo define os intervalos que nossos ouvidos estão acostumados a ouvir no rock, no pop e na maior parte da produção musical ocidental.
A microtonalidade rompe essa lógica ao introduzir notas intermediárias entre essas 12 notas tradicionais, criando intervalos menores que o semitom. Em termos simples, existem sons posicionados “entre” as notas que normalmente usamos.
Esse tipo de sistema aparece com frequência em tradições musicais do Oriente Médio, da Índia e de outras regiões do mundo, mas ainda é relativamente raro no rock. Quando esses intervalos aparecem em riffs de guitarra ou linhas graves mais pesadas, o resultado pode parecer levemente estranho para quem cresceu ouvindo apenas o sistema tradicional.
No caso do Angine de Poitrine, essa microtonalidade é usada de maneira extremamente criativa, gerando uma sonoridade que parece ao mesmo tempo familiar e completamente alienígena.
A guitarra que parece saída de outro planeta
Grande parte dessa identidade sonora vem do instrumento utilizado por Khn de Poitrine. À primeira vista ele parece apenas uma guitarra incomum, mas basta olhar com mais atenção para perceber que o instrumento possui dois braços.
Um deles funciona como guitarra e o outro como baixo, permitindo que o músico toque linhas graves e melódicas simultaneamente enquanto grava camadas sonoras com loops ao vivo. Além disso, os dois braços possuem trastes microtonais, o que amplia ainda mais as possibilidades sonoras do instrumento.
Uma obra de luteria artesanal
Esse instrumento peculiar não saiu de uma fábrica industrial. Ele foi construído sob medida por um luthier da região de Saguenay, no Québec, dentro de um projeto totalmente personalizado.
A construção exigiu mais de 150 horas de trabalho, envolvendo experimentação com posicionamento de trastes microtonais, equilíbrio estrutural do instrumento de dois braços e adaptação para uso intensivo com pedais de loop. O resultado final foi uma peça completamente única.
Com a viralização do vídeo do KEXP, o instrumento também acabou chamando a atenção de músicos ao redor do mundo. Segundo relatos publicados em entrevistas e reportagens recentes, o luthier responsável pela construção passou a receber novos pedidos de instrumentos inspirados no modelo usado pela banda — incluindo encomendas vindas de países como Polônia e outras partes da Europa.
A febre dos “Slipdots”
Depois da viralização da apresentação no KEXP, a popularidade da banda cresceu rapidamente. Em fóruns e redes sociais, muitos fãs passaram a se referir carinhosamente ao grupo como “Slipdots”, uma referência divertida aos figurinos cheios de bolinhas usados pelos músicos.
O impacto foi imediato. A sessão no KEXP rapidamente acumulou milhões de visualizações e colocou o duo no radar de ouvintes em países como Japão, França, Rússia e Alemanha.
Ao mesmo tempo, o primeiro álbum da banda, Vol. 1, lançado originalmente em 2024, teve suas edições físicas rapidamente esgotadas em plataformas de colecionadores como Discogs, refletindo o aumento repentino da procura.
Alguns shows também passaram a registrar ingressos esgotados em poucos minutos, especialmente em apresentações na Europa e na América do Norte, mostrando que o fenômeno viral rapidamente se transformou em uma base sólida de fãs.
O próximo capítulo
Para quem ficou curioso depois de tudo isso, a história do Angine de Poitrine ainda está longe de terminar. O duo já confirmou o lançamento do seu próximo álbum, “Angine de Poitrine Vol. II”, previsto para 3 de abril de 2026.
Como já virou padrão na indústria musical atual, o disco estará disponível nas principais plataformas de streaming, permitindo que novos ouvintes descubram esse universo estranho, técnico e hipnótico criado pela dupla.
Uma coisa é certa: se essa banda realmente veio de outro planeta, o rock definitivamente ganhou um visitante bastante interessante.

