Por Tio do Coturno
Aaah Mulheke!!!
Eu achei que já tinha visto de tudo nessa vida de batedor de cabeça, mas o mundo insiste em me provar que a criatividade humana para o conforto (ou seria para a preguiça?) não tem limites. Recebi um vídeo essa semana que me deixou de cabelo em pé — e olha que o meu já é acostumado com muita ventania de amplificador.
Lá na China, inventaram uma modalidade de show onde a pessoa assiste à apresentação deitada. Isso mesmo, mermão. O público fica estirado, como se estivesse na sala de casa, enquanto a banda toca no palco.
Eu já tinha ficado meio “atrás da orelha” quando vi os vídeos daquela Esfera em Las Vegas. Visualmente é um espetáculo absurdo, uma imersão que parece coisa de outro planeta, mas me causou uma estranheza danada ver um público de rock ali, estático, sentadinho, hipnotizado pela tela.
Mas agora, o nível subiu (ou desceu, né?). Deitar num show? Aaah Mulheke!!! Onde foi parar a energia? Onde foi parar aquele empurra-empurra saudável, o suor, a vibração que a gente sente na sola do coturno? O rock é um estilo que pede movimento, pede que o corpo acompanhe a batida do bumbo. Ver uma plateia na horizontal parece mais um experimento clínico do que um show de música.
Essa cena me deu um estalo imediato e me lembrou daquele filme da Disney/Pixar, o Wall-E (acho que foi esse que você quis dizer, né?). Lembra daquelas pessoas que viviam na nave Axiom?
Eles passavam o tempo todo sentados ou deitados em poltronas flutuantes, com telas na frente do rosto, sem nunca precisar pisar no chão. O resultado? A humanidade ficou obesa, deformada e perdeu a capacidade de agir por conta própria. Eles viraram reféns do próprio conforto.
Parece que estamos caminhando para isso. Se a gente aceita que o rock — que sempre foi sinônimo de rebeldia, atitude e explosão — vire um evento para ser assistido deitadinho, a gente está matando a essência da coisa. O próximo passo é o quê? Um show por telepatia enquanto a gente dorme em casa?
O rock é atitude. Se você não consegue ficar de pé para prestigiar uma banda, se você prefere o conforto de um colchão à vibração da grade, talvez você não esteja num show, esteja num spa.
A gente precisa de gente nova trazendo inovação, como eu sempre digo aqui, mas essa “inovação” não pode ser o sedentarismo. Vamos levantar dessa poltrona, sair da bolha e voltar a sentir o chão tremer sob nossos pés. O rock é para ser vivido, não para ser sonhado em berço esplêndido.
Aaah Mulheke!!!

