Por Tio do Coturno
Aaah Mulheke!!!
Achou que eu tinha morrido, né? Confesso que quase. Tirei umas férias de quase duas décadas. Uma espécie de hibernação criogênica num caixão de flanela, esperando o mundo ficar menos esquisito. Mas parece que o cheiro de bizarrice ficou tão forte que me acordou. Então, tô de volta. Pronto pra trazer pra nação underground o conteúdo que ela merece, mesmo sabendo que nessa era onde respirar errado já rende um cancelamento no tribunal da internet, minha promessa de longevidade é a mesma de um picolé no deserto. Mas quer saber? A gente tá aqui pra cutucar a onça com a vara curta.
Aaah Mulheke!!! E falando em cutucar, que bagulho é esse com os nossos heróis? O cara que escreveu o hino da sua adolescência, aquela letra que te fez pular no quarto e refletir num pub fedendo a cerveja derramada, de repente resolve abrir a boca pra falar uma diarreia verbal que faria um político sentir vergonha. Desprezando fã, cagando regra, tratando quem pensa diferente como lixo. E aí, como faz? Aquele riff que te arrepiava agora dá uma gastrite. A música que era trilha sonora da sua vida agora virou o hino do ranço. Você tenta separar o artista da obra, mas não dá. A obra tá lá, manchada, com cheiro de hipocrisia.
Pra piorar o rolê, o nosso estilo de vida virou… moda. Aaah Mulheke!!! É isso mesmo. Aquele visual que a gente cultivou por pura falta de grana e de saco, hoje é tendência. O underground virou vitrine. A galera passa duas horas na frente do espelho pra conseguir o “look largado”. O rasgo na calça é feito com régua e compasso. A camiseta de banda foi comprada ontem e o indivíduo não sabe citar três músicas. É um estudo de caso antropológico.
E lá vou eu, que acordei, peguei minha camiseta mais velha dos Iron porque ela é confortável pra caraxxx, escovei os dentes só por uma questão de necessidade básica pra não ficar banguela, calcei meu pisante véio de guerra que já tem o formato do meu pé e saí com o cabelo parecendo um ninho de mafagafo. Chego no pico e sou confundido com um desses manequins de loja. Um cara até me perguntou “onde eu tinha montado meu look”. Eu montei no meu quarto, no escuro, em cinco minutos, meu chapa!
Aaah Mulheke!!! O mundo virou uma grande festa à fantasia onde ninguém sabe qual é o tema, mas todo mundo acha que tá fantasiado de mim.
É importante ressaltar que a opinião do colunista independe da visão da X Rock Brasil.

