por Lorena
Essa semana eu li as colunas dos meus parceiros aqui do X Rock Brasil, a Riffa e o Adenilson. Bateu um orgulho danado de ver a molecada do skate e do BMX amassando no Pan-Americano Junior, trazendo medalha, mostrando a força da nossa cultura de rua. E no meio disso tudo, a pergunta veio na marra, como um obstáculo que surge do nada na sua frente: e se fosse a gente? E se o Parkour invadisse um evento desses? As Olimpíadas?
Eu olho pro lado e vejo o que aconteceu com nossos primos do asfalto. O skate, o surf, o breaking… esportes que, como o nosso, nasceram na rua, muitas vezes vistos como “coisa de maloqueiro”. E de repente, eles estão lá, no maior palco do mundo. Com o reconhecimento, veio a estrutura. Pistas melhores, centros de treinamento, patrocínio, visibilidade. Uma molecada que antes não tinha referência, hoje vê seus heróis na TV. É inegável o quanto isso fortalece e faz a cena crescer.
Mas aí vem o outro lado da moeda. O lado que me faz parar e pensar. O Parkour, na sua essência, nunca foi sobre competir contra o outro. É sobre competir contra você mesmo. É a “arte do deslocamento”, a filosofia de “ser forte para ser útil”. Como você coloca isso numa planilha de pontuação? Como você dá nota pra liberdade? Como se julga o flow perfeito, a linha mais criativa, o movimento mais eficiente?
A minha maior preocupação é que, para caber na caixinha de um esporte olímpico, a gente tenha que lixar as nossas arestas. Que a gente precise transformar a anarquia criativa do nosso movimento em uma série de manobras pré-aprovadas. Que a gente perca a alma da rua para ganhar o brilho da medalha. É como tentar transformar a atitude crua do punk rock numa partitura de orquestra. Pode ficar bonito, mas será que ainda é punk rock?
A pergunta fica no ar, ecoando na minha cabeça a cada treino. Será que a gente consegue pisar no pódio sem esquecer a filosofia do asfalto? Eu quero acreditar que sim. Que a nossa comunidade é forte o suficiente para abraçar a oportunidade sem se vender.
No fim, uma medalha enferruja. O espírito de superar um obstáculo, seja ele de concreto ou na vida, esse é eterno.

