A LIXA NÃO ESQUECE A RAIZ

Por Riffa

 

Meu irmão tinha uma fita VHS toda gasta, com uns vídeos de skate dos anos 80. A imagem pulava, o som era uma chiadeira só, mas a gente assistia como se fosse a final de um campeonato mundial. Ele apontava pra tela e falava: “Tá vendo esses caras? Eles inventaram o nosso rolê. Cada manobra que você acerta hoje, eles erraram mil vezes antes pra descobrir como fazer”.

Essa semana, vendo a molecada na mídia de novo, com um talento que parece que veio de outro planeta, eu lembrei dessa fita. É impossível não ficar de cara com o que essa nova geração tá fazendo. Helena, Maria Lúcia, Duda… as minas dominando os pódios antes mesmo de poderem tirar carta de motorista. Eles são um foguete, com um arsenal de manobras que a gente nem sonhava. É lindo de ver, dá um orgulho fudido. O futuro não tá mais batendo na porta, ele já tá mandando um flip pra dentro da sala.

Mas o combustível desse foguete foi misturado lá atrás, nas garagens, nas pistas improvisadas, pelos “dinossauros” da nossa cena. E aí que mora o meu receio. No meio de tanto barulho sobre o “novo”, a gente não pode deixar o eco de quem veio antes sumir. A mídia adora o prodígio, a história do moleque de 15 anos que ganha tudo. Mas e a história do cara de 40, que anda até hoje e que ajudou a construir a pista onde esse moleque dá o rolê?

O skate não nasceu nas Olimpíadas. Ele nasceu na rua, com caras que lixavam shape feito em casa, que fugiam da polícia, que ouviam que “isso não vai dar em nada”. Não tinha patrocínio de banco, não tinha transmissão ao vivo no celular. Tinha atitude, um som na veia e a vontade de criar uma cultura que fosse só nossa. Eles são a base de concreto que segura toda essa estrutura. Sem eles, o pódio de hoje seria só um monte de areia.

É por isso que a gente fica até mordido quando o tempo não ajuda. O Free Session no Quebra-Mar teve que ser adiado por causa da chuva, mas isso só serviu pra deixar a gente com mais vontade ainda. Aquele Campeonato Old School que vai rolar lá é mais que nostalgia. É uma aula. É a prova viva de que a atitude não envelhece, não enferruja. É o nosso rock clássico, e a gente tá esperando o show começar, pra assistir ao vivo, alto e sem frescura.

Então, o recado é pra molecada que tá chegando agora, voando alto: sejam fodas, ganhem o mundo, quebrem todos os recordes. Mas quando cruzarem com um tiozão na pista, um “dinossauro” do rolê, não olhem só como um obstáculo a ser desviado. Para, troca uma ideia, escuta a história dele. Pergunta como era antes. A melhor manobra que vocês podem aprender, a que nunca sai de moda, é o respeito.

A lixa pode ser nova, o shape pode ser o do ano, mas o concreto tem memória. A rua é nossa, mas ela não foi construída ontem.

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