Bring Me the Horizon: A Saga de Transformação, Controversa e Sucesso Global Contra Todos os Prognósticos

Sheffield, março de 2004. Cinco jovens entre 15 e 17 anos, alguns sem sequer saber tocar seus instrumentos direito, decidiram formar uma banda. Inspirados em uma frase do Capitão Jack Sparrow no filme Piratas do Caribe – “Now, bring me that horizon” –, eles criaram o que viria a se tornar um dos fenômenos mais controversos e bem-sucedidos da música moderna. Vinte e um anos depois, o Bring Me the Horizon não apenas sobreviveu a suas próprias transformações radicais; eles redefiniram o que significa ser uma banda de rock no século XXI.

Das Raízes do Deathcore à Revolução Sonora

A formação original reuniu Oliver “Oli” Sykes nos vocais, Lee Malia na guitarra, Curtis Ward na segunda guitarra, Matt Kean no baixo e Matt Nicholls na bateria. O que começou como um projeto de adolescentes rebeldes de Sheffield rapidamente ganhou notoriedade nacional com o EP de estreia “This Is What the Edge of Your Seat Was Made For” (2004), que chegou ao número 41 nas paradas britânicas.

O álbum de estreia “Count Your Blessings” (2006) os estabeleceu como uma força brutal no cenário deathcore. Com uma sonoridade crua, agressiva e polarizadora, o disco foi tanto aclamado pela intensidade quanto criticado pela falta de refinamento. Era música feita por e para jovens furiosos, com Oli gritando suas frustrações sobre riffs pesados e batidas implacáveis.

Mas já em “Suicide Season” (2008), os primeiros sinais de evolução apareceram. O álbum marcou o ponto de virada criativo, comercial e crítico da banda, mostrando uma maturidade musical que poucos esperavam de garotos que, apenas dois anos antes, mal sabiam tocar seus instrumentos.

A Metamorfose: De Metalcore a Fenômeno Global

A verdadeira revolução veio com “Sempiternal” (2013), álbum que não apenas silenciou os críticos, mas redefiniu completamente a trajetória da banda. Com a entrada do tecladista Jordan Fish, antigo membro das bandas Proxies e Worship, o som ganhou camadas eletrônicas sofisticadas que transformaram o Bring Me the Horizon em algo único no cenário metal.

“Sempiternal” foi produzido por Terry Date, conhecido pelo trabalho com Deftones, e trouxe a química perfeita entre peso metal e polimento comercial. Hinos como “Can You Feel My Heart” e “Sleepwalking” mostraram uma banda capaz de manter a intensidade enquanto abraçava melodias cativantes e arranjos complexos. O álbum atingiu o número 3 no Reino Unido e número 11 nos Estados Unidos, provando que evolução e sucesso comercial podiam andar juntos.

A consagração veio com “That’s the Spirit” (2015), que marcou uma transformação ainda mais radical. Abandonando quase completamente as raízes metalcore, a banda abraçou influências do rock alternativo, pop e música eletrônica. Com singles como “Throne”, que lembrava o Linkin Park em seus melhores momentos, e “Drown”, uma balada épica que conquistou rádios mainstream, o álbum alcançou o número 2 tanto no Reino Unido quanto nos Estados Unidos.

Batalhas Pessoais e Renascimento

Por trás do sucesso, uma batalha pessoal intensa se desenrolava. Oliver Sykes enfrentou uma grave dependência de ketamina durante anos, um vício que quase destruiu a banda e suas relações pessoais. Em um discurso emocionante no Alternative Press Music Awards de 2014, ele revelou publicamente sua luta: “Eu era viciado em drogas. Minha banda queria me matar, meus pais queriam me matar… Eles ficaram ao meu lado durante toda essa merda”.

O tratamento em uma clínica de reabilitação e o apoio incondicional da família e da banda não apenas salvaram sua vida, mas inspiraram algumas de suas composições mais honestas e poderosas. A experiência da recuperação se tornou parte integral da identidade artística de Sykes e influenciou profundamente o direcionamento futuro da banda.

Durante a pandemia de COVID-19, Sykes enfrentou uma recaída, admitindo que “voltei a usar drogas durante a pandemia” devido ao tédio e à mudança drástica de rotina. Mais uma vez, ele buscou ajuda através de terapia e até passou tempo em um ashram no Brasil com sua esposa brasileira, reafirmando seu compromisso com a sobriedade e a saúde mental.

O Império Beyond Music: Drop Dead e Ativismo

Paralelamente à música, Oli construiu um império na moda alternativa com a Drop Dead Clothing. Começando com £500 emprestados de sua mãe em 2004, a marca se tornou uma potência no cenário alternativo, pioneira em roupas gender-fluid e conscientização ambiental. A Drop Dead reflete a filosofia de constante evolução de Sykes: “Quando me canso de como a Drop Dead parece, eu mudo. Se ainda estivesse tentando fazer a mesma coisa de 10 anos atrás, eu não usaria”.

A marca se tornou uma plataforma para causas importantes, desde saúde mental até sustentabilidade, consolidando Sykes como uma voz influente além da música.

Era Pós-Pandemia: Reinvenção e Maturidade

O período recente trouxe novos desafios e conquistas. “Post Human: Survival Horror” (2020) marcou um retorno às raízes mais pesadas, influenciado pela pandemia e pela colaboração com o compositor de videogames Mick Gordon. O EP, parte de uma planejada série de quatro lançamentos, mostrou uma banda ainda capaz de surpreender e se reinventar.

“Post Human: Nex Gen” (2024) chegou após um hiato de cinco anos entre álbuns de estúdio, o mais longo da carreira da banda. Lançado como surpresa em maio, o álbum explora territories sonoros que vão do post-hardcore ao hyperpop, passando por nu metal e electronica. Foi também o último álbum com Jordan Fish, que deixou a banda em dezembro de 2023 após 11 anos de parceria fundamental.

Legado de uma Geração

Hoje, o Bring Me the Horizon não é apenas uma banda; é um fenômeno cultural que vendeu mais de 5 milhões de discos mundialmente. Eles redefinirão as regras do que uma banda de rock pode ser, provando que autenticidade e evolução não são mutuamente exclusivas. De adolescentes furiosos fazendo deathcore brutal a artistas maduros capazes de lotar arenas com composições que misturam metal, pop e música eletrônica, sua trajetória é única.

A recepção inicialmente hostil em festivais como Reading – onde foram vaiados e tiveram objetos arremessados contra eles em 2013 – se transformou em aclamação dois anos depois, quando o público “ficou absolutamente louco” por eles. Essa transformação simboliza perfeitamente a jornada da banda: de parias do metal a reis indiscutíveis de uma nova era do rock.

Em 2025, Oli Sykes revelou ter 12 músicas prontas das sessões de “Nex Gen” esperando para serem lançadas, prometendo que “haverá nova música e shows” no próximo ano, embora admita que a banda precisa de um tempo para “recarregar as baterias”. O próximo álbum completo pode não chegar antes de 2026, mas a pausa é estratégica: “Esses discos precisam ser muito claros e separados, senão há risco de cada um sangrar muito no outro”.

A saga do Bring Me the Horizon é a prova definitiva de que no rock moderno, a única constante é a mudança. Eles não apenas sobreviveram às suas metamorfoses; elas se tornaram sua marca registrada, inspirando uma geração inteira de bandas a quebrar barreiras e desafiar expectativas. Se o deathcore os fez nascer, foi sua coragem de evoluir que os fez imortais.

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