por Adenilson
Oficina de garagem tem um barulho próprio: o estalo da catraca, o chiado da lixa, a chave allen escorregando do parafuso. Mas pra mim, nenhum desses sons faz sentido sem uma trilha de fundo. É o som que segura a chave, que dá o ritmo do rolê mesmo quando a bike tá desmontada.
Nasci nos anos 80 e cresci nos 90. Então não adianta: meu combustível sempre foi aquele rock nervoso que misturava peso com raiva e, de vez em quando, até humor. Raimundos berrando verdades sujas, CBJR cantando o que a gente sentia e não sabia explicar, CPM 22 colocando poesia no meio da correria. Esses caras eram a gente, só que com guitarra na mão.
E teve também o impacto de fora. Linkin Park mostrando que dava pra misturar rap com metal e ainda soar sincero pra c*ralho. Korn com aquele peso estranho que parecia vir do estômago. Limp Bizkit me lembrando que atitude não é só pose — é transformar frustração em grito. Cada banda dessas foi tijolo na parede que eu chamo de oficina hoje.
Quando tô escrevendo minhas colunas, é quase sempre com uma dessas vozes me cutucando. O som entra pelo ouvido e sai pelo teclado, misturado com graxa, suor e cicatriz. Não é playlist de academia, é trilha de vida.
Pra mim, cada música dessas é igual a uma peça da bike. Tem hora que você precisa da porrada rápida, tipo sprint de corrida. Tem hora que você precisa do groove pesado, tipo segurar um manual até o fim. E tem hora que é só ligar o som e deixar a chave girar no compasso da bateria.
A bike é corpo. O som é alma. E quando os dois se encontram na garagem, é aí que nasce de verdade cada rolê, cada coluna, cada lembrança que eu guardo nesse mundo de duas rodas.
No fim, é cair, levantar, repetir… e mandar um tailwhip no sistema.

