Biografias: Raimundos — Do asfalto de Brasília ao legado que atravessa geraçõesPróxima edição

Se existe uma banda que sintetiza a urgência do punk e a brasilidade do forró em um mesmo refrão, esse nome é Raimundos. Nascidos nas esquinas e garagens de Brasília no final dos anos 80, os Raimundos explodiram nos anos 90 com uma mistura crua, direta e cheia de humor — e se consolidaram como um dos grupos mais relevantes do rock nacional daquela década.

Formada oficialmente em 1987, a banda reuniu jovens de Brasília que respiravam punk, hardcore e as sonoridades nordestinas que atravessavam as famílias e festas regionais. A pegada era agressiva, rápida e com letras que misturavam deboche e observações do cotidiano. Essa combinação deu ao grupo identidade e um público fiel muito rápido — primeiro na cena independente e depois nas grandes rádios e na MTV.

Após o retorno às atividades no início dos anos 90, a banda lançou sua demo e chamou a atenção de produtores e gravadoras. O primeiro álbum, Raimundos (1994), saiu pelo selo independente Banguela e já mostrou a fórmula: riffs diretos, letras irreverentes e uma mistura de punk com toques nordestinos — o disco vendeu muito bem e colocou o nome da banda no mapa nacional. Logo vieram Lavô Tá Novo (1995), Cesta Básica (1996) e Lapadas do Povo (1997), garantindo shows lotados e afirmação crítica. Em 1999, Só no Forévis cravou hits como “Mulher de Fases”, que atravessaram gerações e consolidaram a presença massiva da banda. Ao longo desses anos os Raimundos venderam milhões de discos e se tornaram referência do rock dos anos 90 no Brasil.

No fim daquela década, a presença do Raimundos na televisão e em grandes festivais explodiu — o registro MTV Ao Vivo (2000) capturou a vibração da banda ao natural e virou um marco de sua carreira. A banda provava que sabia traduzir em espetáculo a energia das suas músicas — e que o público correspondia em massa.

O ano de 2001 mudou os rumos do grupo. Rodolfo Abrantes, voz e rosto da banda, anunciou sua saída em meio a um processo pessoal de conversão e mudança de valores. A notícia chocou fãs e a cena: muitos acreditaram que os Raimundos não sobreviveriam sem o frontman original. Para cumprir compromissos contratuais e mantendo a integridade musical, o grupo lançou Éramos 4 (2001), um disco que serviu como transição — com participação de convidados e com Digão assumindo os vocais em parte do repertório. A decisão marcou o início de uma nova fase, entre a resistência e a reinvenção.

Formações e mudanças

Aqui está a trajetória das formações — essencial para entender as fases da banda:

  • Formação clássica / início (1987–1992): Digão (inicialmente na bateria, depois na guitarra), Rodolfo (vocal/guitarra), Canisso (baixo) — nos shows iniciais Fred ainda não era membro fixo.
  • Consolidação (1992–2001): Digão (guitarra), Rodolfo (vocal/guitarra), Canisso (baixo), Fred (bateria). Essa formação é a que gravou os discos que se tornaram hinos dos anos 90.
  • Crise e saída de Rodolfo (2001): Rodolfo anuncia desligamento; Digão assume os vocais em Éramos 4. A banda enfrenta reestruturação interna.
  • Anos 2002–2007: Canisso sai em 2002; Alf (conhecido do circuito brasiliense) assume o baixo em determinado período. Fred se afasta em 2007; a banda toca com novas formações e projetos paralelos.
  • Retorno de Canisso e fases recentes (2007–2023): Canisso retorna em 2007 para processos de retomada da banda e participa de shows e turnês esporádicas até sua morte em 2023. A partir daí o grupo segue ativo com músicos de turnê e novas incorporações.
  • Formação atual (anos 2010–2025): Digão se mantém como pilar — ao lado de Marquim (guitarra) e Caio (bateria) — e outros músicos de apoio passaram por períodos de turnê e gravação; a banda segue em atividade e em turnê, mantendo viva a essência do som.

Uma das grandes forças dos Raimundos foi nunca terem sido previsíveis. Entre o deboche e a agressividade punk, o grupo injetou ritmos nordestinos, refrões pop e experimentações que variaram conforme álbum e momento — às vezes mais crus, outras vezes com produção maior. Essa fluidez permitiu que a banda conversasse com fãs do underground e do mainstream ao mesmo tempo.

Ao longo dos anos os integrantes lançaram projetos paralelos, participaram de colaborações e seguiram caminhos pessoais. Essas movimentações, que são comuns em bandas com trajetórias longas, ajudaram a renovar a cena ao mesmo tempo em que criavam ruídos internos — mas também permitiram que a marca Raimundos se mantivesse presente por novos caminhos.

A morte de Canisso em março de 2023 foi um momento de grande comoção para fãs e para o rock nacional. Canisso era parte da alma do som; seu retorno em 2007 havia sido celebrado como a reunião de um time histórico — e sua partida deixou saudade e reconhecimento pelo papel que desempenhou. A história da banda é menos uma linha reta e mais um mosaico de encontros, partidas, reconciliações e intensa criação coletiva.

Do debut independente às grandes vendas de Só no Forévis e ao DVD/MTV Ao Vivo, o catálogo dos Raimundos continua vivo em playlists, trilhas sonoras e na boca das gerações que cresceram cantando “Mulher de Fases”, “Selim”, “Puteiro em João Pessoa” e tantos outros. A influência segue clara: mistura de gêneros, atitude sem pose e uma linguagem urbana que dialoga com a periferia, com o skate e com a juventude.

A banda Raimundos representa uma camada autêntica do rock brasileiro: sem afetação, com humor ácido, com raízes nordestinas e com capacidade de se reinventar. Eles foram (e ainda são) um retrato da cena dos anos 90 e um lembrete de que a música com raiz fala alto — sempre — quando quem canta tem verdade. Hoje o nome Raimundos segue gerando interesse, sendo revisitado por novas audiências e mantendo um circuito de shows que prova que o legado ainda pulsa.

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