A MENTIRA PERFEITA E O ROCK QUE VIROU DISNEY

Por Tio do Coturno

 

Aaah Mulheke!!!

Tem dia que eu levanto e penso: a humanidade perdeu de vez o senso de ridículo. E aí me deparo com mais uma daquelas histórias perfeitas, redondinhas, feitas para fazer a sua vó chorar no feed do Facebook: o tal fact check da notícia em que Steven Tyler teria enviado toneladas de ajuda humanitária para a Jamaica depois do Furacão Melissa.

Não importa se é verdade ou não (spoiler: geralmente não é), mas o fato de a notícia ser tão perfeita é o que me dá gastrite. É a mentira aspiracional, o sentimentalismo barato, a história de herói que o povo quer para dar like e sentir que ainda tem salvação no mundo. É a mesma gente que aplaude aqueles que fazem música sem alma, porque o que importa não é o som, é a narrativa. Eles querem a lágrima fácil, não o riff que te revira as entranhas. O rock, meu chapa, é a verdade dura. E a verdade é que o Furacão Melissa talvez só tenha trazido mais sujeira.

Aaah Mulheke!! E falando em verdade, recebi uma paulada de realidade que veio do cara certo. O Thurston Moore, do Sonic Youth (o som dele pode ser esquisito, mas o pensamento é true), soltou a bomba sobre os festivais de rock. Ele não disse que o rock morreu (e eu concordo!), mas disse que o público de hoje não está mais interessado em rock, e sim em “entretenimento como um conceito mais amplo”.

Ele cravou na ferida: o Lollapalooza e esses festivais gigantes viraram a Disneylândia. Eles trocam o Led Zeppelin e o Pearl Jam por… bem, ele citou alguns nomes, mas na minha opinião a lista é muito mais ampla. Ele elogia o show, diz que tem dançarinos e que é esteticamente bom, mas isso é entretenimento, é produto, é a linha de montagem de refrão fácil, com prazo de validade de 15 segundos. O rock sempre foi o soco na cara da normalidade. Ele era para ser perigoso, sujo, imprevisível, a antítese do show com dançarino e cenário. Agora, virou um show de auditório premium, onde a prioridade é a estabilização da câmera para o story, não a energia do palco.

O Moore disse a real: o rock segue vivo, mas ocupando outros espaços. Ele foi exilado! Ele saiu da arena e voltou para a garagem, para o bar fudido, para o pico onde a atitude vale mais do que o patrocínio da cerveja.

A gente não quer a Disneyficada! A gente quer o caos, o suor, o amplificador no talo e o risco de tomar um empurrão no mosh. Se o público de massa quer “entretenimento” seguro, o rock agradece. É a chance de resgatar a sujeira e a urgência que foram esquecidas.

Aaah Mulheke!!!

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