Existem bandas que chegam ao topo. Existem bandas que caem no abismo. E existe o Aerosmith, a banda que fez os dois e, de alguma forma, voltou do inferno para se tornar ainda maior do que antes. Nascidos do blues e batizados no caos, os “Bad Boys de Boston” personificaram o rock and roll em sua forma mais crua, perigosa e, finalmente, indestrutível. Liderados pela dupla mais volátil e genial da história, os “Gêmeos Tóxicos” Steven Tyler e Joe Perry, esta é a saga da banda que se tornou a maior fênix do rock.
No final dos anos 60, em Boston, duas forças da natureza colidiram. De um lado, Steven Tyler, um baterista com a boca de um demônio e a ambição de um deus do rock. Do outro, Joe Perry, um guitarrista introvertido que falava através de riffs sujos e cheios de blues. A química entre os dois foi instantânea e explosiva. Juntando-se a Tom Hamilton (baixo), Joey Kramer (bateria) e Brad Whitford (guitarra rítmica), eles formaram o Aerosmith, uma máquina de rock and roll com o DNA dos Rolling Stones e a pegada do Led Zeppelin, mas com uma atitude totalmente americana.
Após o lançamento do álbum de estreia homônimo em 1973, que trouxe a balada imortal “Dream On”, o Aerosmith decolou. A sequência de álbuns que se seguiu é simplesmente lendária. “Toys in the Attic” (1975) e “Rocks” (1976) são considerados por muitos como duas das maiores obras-primas do hard rock. Com hinos como “Sweet Emotion” e a versão original de “Walk This Way”, eles criaram o manual do rock and roll sujo, arrogante e irresistível que influenciaria toda uma geração de bandas, do Guns N’ Roses ao Mötley Crüe. Eles eram os reis da América.
O sucesso veio acompanhado de um mergulho de cabeça no abismo. O abuso de drogas e álcool atingiu níveis estratosféricos, e a relação entre os “Gêmeos Tóxicos” se deteriorou em uma guerra de egos e punhos. As brigas se tornaram lendárias, culminando na saída de Joe Perry em 1979, seguido por Brad Whitford em 1981. O Aerosmith, agora uma sombra de si mesmo, cambaleou pela primeira metade dos anos 80, lançando álbuns que foram fracassos comerciais e de crítica. A banda que um dia lotou estádios agora tocava em clubes para uma plateia cada vez menor. Eles estavam acabados.
Quando todos já haviam assinado o atestado de óbito da banda, o impensável aconteceu. Em 1984, a formação clássica se reuniu. O caminho de volta foi lento e difícil, mas um evento em 1986 mudou tudo. O produtor Rick Rubin teve a ideia genial de juntar a banda com o grupo de hip-hop Run-DMC para regravar “Walk This Way”. O resultado foi um hit revolucionário que não apenas quebrou as barreiras entre o rock e o rap, mas também reintroduziu o Aerosmith a uma nova geração.
A ressurreição estava completa com o lançamento de “Permanent Vacation” (1987). Com a ajuda de compositores externos e uma produção polida, a banda abraçou a era da MTV. Hits como “Dude (Looks Like a Lady)” e a power ballad “Angel” os tornaram maiores do que nunca. A dominação continuou com os álbuns multiplatinados “Pump” (1989) e “Get a Grip” (1993), que transformaram o Aerosmith em uma máquina de fazer sucessos globais, como “Love in an Elevator”, “Janie’s Got a Gun”, “Cryin’” e “Crazy”.
Os anos 90 e 2000 consolidaram o status do Aerosmith como uma instituição. Em 1998, eles alcançaram um novo pico com “I Don’t Want to Miss a Thing”, a balada épica da trilha sonora do filme “Armageddon”, que se tornou seu primeiro single a atingir o número um nas paradas da Billboard.
Hoje, mesmo enfrentando os desafios da idade e da saúde, a banda continua a ser um testamento à resiliência. Sua saga não é apenas sobre música; é sobre sobrevivência. Eles foram ao inferno, olharam o diabo nos olhos e voltaram para contar a história, com um sorriso no rosto e um riff matador na guitarra. O Aerosmith não é apenas uma banda de rock. Eles são a própria definição de uma segunda chance.

