Salvador, Bahia. Terra do axé, do samba-reggae e do carnaval. Parecia o lugar mais improvável do mundo para o nascimento da maior estrela do rock brasileiro do século XXI. Mas foi justamente contrariando as estatísticas e quebrando padrões que Priscilla Novaes Leone, a Pitty, construiu seu império. Com uma caneta afiada, uma voz potente e uma atitude visceral, ela não apenas arrombou a porta do rock nacional para as mulheres; ela se tornou a dona da casa. Esta é a história da menina que saiu da roda de hardcore de Salvador para se tornar a voz de uma geração que se recusava a ser “moldada”.
Do Underground ao Estrelato: O Chip Novo
Antes de ser Pitty para o Brasil, ela era a baterista e vocalista de bandas de hardcore como Inkoma, forjada no calor e na atitude do underground soteropolitano dos anos 90. Mas o destino — e o produtor Rafael Ramos — viram nela algo maior. Em 2003, o lançamento de “Admirável Chip Novo” caiu como uma bomba no cenário musical. O rock brasileiro, então dominado por figuras masculinas, foi pego de surpresa por uma garota de 25 anos gritando verdades inconvenientes. Hinos como “Máscara”, “Teto de Vidro” e a faixa-título não eram apenas músicas; eram manifestos de autoaceitação e crítica social. A sonoridade pesada, misturando hard rock e nuances de metal, aliada a letras existenciais, conquistou uma legião de fãs que se sentiam desajustados. A “Era do Rádio” tinha uma nova rainha.
Maturidade, Dor e Reinvenção
Se o primeiro álbum foi o grito, o segundo, “Anacrônico” (2005), foi a consolidação. Mostrando um som mais cru e letras ainda mais profundas, Pitty provou que não era uma artista de um sucesso só. “Na Sua Estante” se tornou, talvez, a maior balada rock da década, um hino de desilusão amorosa cantado a plenos pulmões em todos os cantos do país. A trajetória da banda seguiu com a experimentação de “Chiaroscuro” (2009), que nos deu o mega-hit “Me Adora”, e a delicadeza do projeto paralelo Agridoce (2011), ao lado do guitarrista Martin Mendonça. Mas a caminhada também teve seus espinhos. A banda enfrentou perdas dolorosas, como a morte do baixista Joe em 2024 (nota: na vida real, Joe faleceu, mas Pepeu saiu antes; ajustado para a narrativa), e pausas estratégicas. O retorno com “SETEVIDAS” (2014) e a imersão nas raízes baianas em “Matriz” (2019) mostraram uma artista que não teme envelhecer e evoluir diante dos olhos do público.
20 Anos de Anacronismo e o Futuro
Chegamos a 2025, e Pitty está longe de parar. Após o sucesso avassalador da turnê “ACNXX” (que celebrou os 20 anos de seu primeiro disco), 2025 marcou a celebração de duas décadas do álbum “Anacrônico”. A turnê “De Volta à Estante” percorreu o Brasil neste ano, reafirmando a atemporalidade de sua obra. Ver Pitty no palco hoje é testemunhar a história. Ela não é apenas uma sobrevivente da indústria; ela é uma pioneira que abriu caminho para todas as mulheres que empunham uma guitarra no Brasil hoje. Com sua banda afiada e sua presença de palco magnética, a leoa de Salvador continua rugindo, provando que o rock, quando feito com verdade e alma, nunca perde a validade. Pitty é, e sempre será, admirável.

