Enquanto o rock brasileiro explodia no eixo Rio-São Paulo-Brasília com a fúria urbana de Legião, Titãs e Barão, uma bomba-relógio intelectual estava sendo montada no extremo sul do país. Em Porto Alegre, longe das capitais, um trio de universitários decidiu que o rock podia ser mais do que apenas três acordes e uma atitude rebelde. Podia ser um quebra-cabeça, uma tese, um labirinto de referências literárias, filosóficas e cinematográficas. Liderados por um baixista e vocalista que empunhava as palavras como uma arma de precisão, nasciam os Engenheiros do Hawaii, a banda que provou que era possível lotar estádios com um pop rock para pensar.
A história começa, ironicamente, como um acidente. Em 1985, para preencher um espaço em um show de universitários, um grupo de estudantes da Faculdade de Arquitetura da UFRGS decidiu montar uma banda. O nome, Engenheiros do Hawaii, era uma provocação aos estudantes de engenharia com quem dividiam o bar da faculdade. O que era para ser uma piada de uma noite só se tornou um projeto de vida. O núcleo criativo estava formado: Humberto Gessinger (baixo e vocais), Carlos Maltz (bateria) e, pouco depois, Augusto Licks (guitarra), que completaria a formação clássica.
Com as letras complexas e a voz anasalada de Gessinger, a bateria precisa de Maltz e a guitarra virtuosa e cheia de personalidade de Licks, eles eram um ponto fora da curva. A fita demo que gravaram foi parar nas mãos certas, e o contrato com a gravadora BMG selou o destino do trio.
O álbum de estreia, “Longe Demais das Capitais” (1986), já era uma declaração de intenções. A faixa “Toda Forma de Poder” os colocou no mapa, mas foi com a “trilogia gaúcha” que eles se consolidaram. “A Revolta dos Dândis” (1987) e “Ouça o que eu digo: não ouça ninguém” (1988) eram discos recheados de hinos que misturavam angústia existencial com críticas sociais veladas. Músicas como a épica “Infinita Highway” e a reflexiva “Terra de Gigantes” se tornaram a trilha sonora de uma juventude que se sentia igualmente deslocada e inteligente demais para o mundo.
Gessinger se tornou o mestre do jogo de palavras. Suas letras eram um banquete para os iniciados, cheias de neologismos, citações de Sartre, Camus e trocadilhos que os críticos amavam odiar, mas que os fãs transformavam em evangelho.
O auge da popularidade veio com o álbum “O Papa é Pop” (1990). Com uma sonoridade mais polida e refrãos que grudavam no cérebro, os Engenheiros se tornaram uma das maiores bandas do Brasil. A faixa-título era uma crítica irônica à própria fama, enquanto a balada “Pra Ser Sincero” se tornava um hino de corações partidos em todo o país. Eles eram a prova de que era possível fazer sucesso massivo sem subestimar a inteligência do público. O rock cerebral havia vencido.
A fase seguinte, com álbuns como “Várias Variáveis” e o experimental “Gessinger, Licks & Maltz”, viu a banda explorar territórios mais progressivos, com a guitarra de Augusto Licks ganhando ainda mais destaque. Eles estavam no topo do mundo, mas as rachaduras na fundação já eram visíveis.
Em 1993, a formação clássica implodiu. A saída de Augusto Licks foi um divórcio litigioso e amargo, que deixou uma cicatriz profunda na história da banda e dividiu os fãs. Para muitos, era o fim. Mas Gessinger, a força motriz e o único engenheiro original restante, se recusou a abandonar o projeto.
Com novos músicos, a banda continuou, provando sua resiliência. O álbum “Simples de Coração” (1995) trouxe o hit “A Promessa”, e o Acústico MTV, em 2004, foi um sucesso estrondoso que os apresentou a uma nova geração e celebrou sua imensa coleção de clássicos. Gessinger provou que, embora as peças mudassem, a arquitetura do som e do pensamento dos Engenheiros permanecia intacta.
Em 2008, após uma longa e vitoriosa carreira, a banda anunciou um “hiato por tempo indeterminado”. Não foi um fim, mas uma pausa para que novos projetos pudessem ser construídos. Hoje, Humberto Gessinger continua a carregar a chama em sua aclamada carreira solo, mantendo o legado da banda vivo nos palcos.
Os Engenheiros do Hawaii nunca foram uma unanimidade. Eram amados por uma legião de fãs fiéis e frequentemente desprezados por uma crítica que não sabia como encaixá-los. Mas seu legado é inegável. Eles foram a trilha sonora da galera que preferia um livro a uma festa, que encontrava poesia no caos e que acreditava que uma canção de rock podia, sim, mudar a forma como você enxerga o mundo. Eles não eram apenas uma banda. Eram um estado de espírito.

