O PREÇO DA IMAGEM: QUANDO UMA LENDA QUASE VIRA ESTATÍSTICA

por Sam

 

Sal na veia, irmão.

Essa semana a gente tomou um soco no estômago. E o soco veio de Nazaré, daquele canhão português que não sabe brincar.

Carlos Burle, 58 anos. Um dos pais do big surf brasileiro. Um cara que eu respeito, que tem mais hora de água salgada do que muito moleque tem de vida. O cara viu a morte de perto na quarta-feira passada.

O mar estava gigante, 30 metros, prédio de dez andares desabando na cabeça. Burle tomou a vaca da vida dele. Três ondas na cabeça. Três minutos no liquidificador, sem ar, sendo jogado como uma “meia na máquina de lavar”, como ele mesmo disse. Sobrevivência pura.

Mas o que me fez sentar e escrever essa coluna com a mão tremendo não foi o tamanho da onda. Foi o motivo do perrengue.

A gente vem falando aqui há meses: o vício pela imagem está matando a essência do surfe. Mas eu nunca achei que veria um gigante como o Burle cair nessa armadilha.

Ele admitiu, com a hombridade de quem sabe que errou: estava com uma câmera na mão. Queria um ângulo diferente. Queria o take de frente. E por causa disso, atrasou o acionamento do colete. Por causa disso, não conseguiu segurar no sled do jet-ski. Por causa de um pedaço de plástico pra postar na rede social, a gente quase perdeu um ídolo.

“Eu não deveria estar com aquela câmera de forma alguma”, ele disse.

E se o Burle, com toda a experiência, técnica e preparo físico dele, quase foi pro saco por causa de uma filmagem… o que sobra pra você, que quer entrar no mar de ressaca segurando o pau de selfie?

Se a tecnologia quase matou, o braço humano salvou. E aqui eu tiro o chapéu de novo pro Lucas Chumbo. O moleque já tinha brilhado em Itacoatiara ajudando o Scooby, e agora liderou o resgate do mestre dele.

O Chumbo pulou na água, gritou, botou no colo. O jet virou, o caldo engrossou, e aí brilhou a estrela do Willyam Santana, que tirou os dois do inferno. Isso é irmandade. Isso é o surfe de verdade. Na hora que o bicho pega, não é o like que te salva, é o parceiro que tá disposto a se jogar na espuma por você.

O Burle “zerou pulmão e cérebro”, tá vivo e diz que vai voltar. Graças a Deus. Mas que esse susto sirva de lição definitiva pra toda a comunidade do surfe, do amador ao profissional.

A melhor imagem é a que fica na memória. A melhor história é a que você volta vivo pra contar.

Larga a câmera. Segura a vida. O mar não perdoa vaidade.

Estamos contigo, Burle. Mas na próxima, vai só com a alma, irmão.

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