Por Tio do Coturno
Aaah Mulheke!!!
Hoje o clima é de velório, mas daqueles que a gente celebra a vida do falecido enquanto lamenta que o mundo ficou um pouco mais cinza. O assunto da semana é o fim definitivo da transmissão dos canais da MTV. Eu até entendo o lado da empresa, que tentou se reinventar, tentou manter o sinal no ar em um mundo que não para mais pra olhar pra uma tela de TV, mas dói. Dói porque, enquanto o logo estivesse lá no canto da tela, ainda existia aquele restinho de esperança — por mais boba que fosse — de que tudo aquilo pudesse voltar. Agora, o cabo foi puxado de vez.
O que os jovens de hoje perderam com esse imediatismo das redes sociais é algo que eles nem conseguem mensurar. Hoje tudo é pra ontem, tudo dura 15 segundos, o vídeo é corrido e o sentimento é descartável. A gente não! A gente tinha a experiência.
A gente vivia o momento de juntar a galera na frente da TV. A gente passava a tarde inteira esperando, com o dedo no “REC” do videocassete, só para ver o clipe novo da nossa banda favorita. Essa vivência, esse frio na barriga de esperar o resultado de uma votação, não chega mais nessa molecada que tem tudo na palma da mão e não valoriza nada.
Vamos falar a real: a MTV da fase Abril foi o melhor momento da televisão brasileira. Era um oásis de loucura e criatividade. Era onde a gente se sentia representado. E o que fazia aquilo girar eram os VJs.
Que saudade daquela constelação! Tinha a Sabrina Parlatore e a Sarah Oliveira que pareciam nossas melhores amigas; o Cazé Peçanha com aquela inteligência ácida; o Marcos Mion que revolucionou o jeito de zoar clipe no Piores Clipes; o mestre Thunderbird que é a cara do rock; o saudoso Kid Vinil que era uma enciclopédia ambulante… e o Edgar Piccoli, que apresentava o Jornal da MTV e o Fanático com uma classe que não existe mais.
Muitos deles continuam ativos, brilhando em podcasts, no rádio ou em outros canais, mas a gente sabe: jamais será a mesma coisa. A magia daquela “casa” na Avenida Alfonso Bovero, em Perdizes, era única. Eles eram os curadores da nossa rebeldia.
A gente ficava ali, ansioso pelo primeiro lugar no Disk MTV ou no Top 20. E eu confesso aqui, debaixo do meu chapéu: a gente xingava, fazia cara feia e reclamava quando o topo da parada era ocupado pelos Backstreet Boys ou pelo ‘N Sync. A gente era rockeiro radical!
Mas, Aaah Mulheke!!!, ouvindo a porcaria que toca nas rádios e nos “charts” de hoje, parece que as boybands dos anos 90 eram o suprassumo da sofisticação musical. Pelo menos os caras sabiam cantar, tinha harmonia, tinha produção! Perto do que a gente é obrigado a engolir hoje, até o Nick Carter parece o Robert Plant.
O que nos resta agora são as lembranças de uma época em que a música era o centro das nossas vidas, e não apenas um fundo musical para uma dancinha de TikTok. A MTV morreu de vez, mas o que ela plantou na nossa cabeça ninguém consegue deletar.
Aaah Mulheke!!!

