A história real por trás de um dos hinos mais brutais do metal moderno, que conectou a mídia sangrenta dos anos 70 ao caos das nossas redes sociais.
Aperte o play e prepare-se para o impacto. A introdução não pede licença: uma cacofonia de scratches de DJ, batidas eletrônicas esquizofrênicas e, de repente, uma bateria tocada em velocidade “blast beat”, típica do metal extremo. Por cima desse caos sonoro, uma voz visceral vomita palavras sobre desinformação, jornais baratos e o apetite humano pela tragédia.
A sonoridade lembra a fúria do início dos anos 2000, quando essa banda de nove membros mascarados apavorou (e conquistou) o planeta com sua estética de filme de terror. Mas o terror que inspira essa faixa não é fictício.
Tudo nasceu no sofá do vocalista. Ele estava assistindo a um documentário policial na Netflix sobre um famoso assassino em série que aterrorizou a Inglaterra no final da década de 1970. Ao observar como os jornais da época lucraram com o medo, publicando boatos e distorcendo fatos, ele percebeu algo aterrorizante: a fúria cega daquela época era idêntica à forma como nos comportamos no Twitter (atual X) e nas redes sociais de hoje.
A banda é a máquina de caos Slipknot. A música, a esmagadora “The Chapeltown Rag” (lançada no álbum The End, So Far de 2022). E o assassino em série que deu faísca a essa ideia foi o infame Estripador de Yorkshire.
A inspiração de Corey Taylor (vocalista do Slipknot) veio ao assistir ao documentário The Ripper (O Estripador), da Netflix. A série narra os crimes de Peter Sutcliffe, que assassinou 13 mulheres no norte da Inglaterra, com foco especial no subúrbio de Chapeltown, na cidade de Leeds.
A palavra “Rag” no título da música significa “trapo”, mas em inglês também é uma gíria pejorativa para jornais sensacionalistas (tabloides). “The Chapeltown Rag” seria um jornal fictício que lucra com o sangue.
Corey ficou enojado ao ver como a polícia e a imprensa da época trataram as vítimas, focando no sensacionalismo e ignorando fatos cruciais, o que atrasou a captura do assassino. O instinto humano por sangue e fofoca governava as manchetes.
A genialidade lírica da música está no paralelo que Corey Taylor traça. Ele percebeu que o “jornalismo de trapo” e a caça às bruxas movida a boatos em Chapeltown nos anos 70 eram a mesma coisa que a nossa cultura moderna nas redes sociais, governada por algoritmos de ódio.
A letra ataca a forma como aceitamos qualquer manchete como verdade na internet:
Read all about it if you want to know
Read all about what they want you to know(Leia tudo sobre isso se você quiser saber)
(Leia tudo sobre o que eles querem que você saiba)
Em outro trecho brutal, Corey ataca a idolatria doentia e o comportamento tóxico das massas online, onde a mentira se espalha mais rápido que a verdade:
Everything is God online, and it’s as evil as it gets
This is not a trick, you can’t contain it(Tudo é Deus online, e é tão maligno quanto pode ser)
(Isso não é um truque, você não pode conter)
Instrumentalmente, o próprio guitarrista Jim Root descreveu a faixa como um retorno aos tempos de insanidade do lendário álbum Iowa. É rápida, desconfortável e violenta.
“The Chapeltown Rag” não é apenas uma música pesada sobre um serial killer. É o Slipknot colocando um espelho na frente da humanidade, dizendo: nós ainda consumimos tragédias como se fossem entretenimento, apenas trocamos os jornais sujos de sangue pela tela brilhante dos nossos celulares.
E aí, curtiu a história? Deixe nos comentários qual clássico do rock você quer ver desvendado na nossa próxima coluna!

