Como um livro proibido sobre a Primeira Guerra Mundial inspirou uma banda a quebrar suas próprias regras e criar uma obra-prima.
A música não começa com música, começa com a guerra. O som de helicópteros cortando o céu, explosões ao longe e o disparar de metralhadoras. Então, um violão dedilha uma melodia triste, gélida, acompanhada de um solo de guitarra que chora.
Aos poucos, a canção vai escalando. De uma balada sombria, ela se transforma em uma marcha militar frenética, até explodir naquilo que é considerado um dos momentos mais icônicos da história do rock pesado: uma rajada de bumbos duplos na bateria e guitarras rítmicas sincronizadas que soam exatamente como uma metralhadora em pleno combate.
Mas a agressividade sonora é apenas o pano de fundo para uma letra que narra o terror psicológico absoluto. Ela fala sobre um homem acordando após uma explosão, percebendo lentamente que não tem mais braços, pernas, nem a capacidade de ver, ouvir ou falar. Uma mente perfeita e lúcida presa para sempre dentro de um pedaço de carne no leito de um hospital, implorando a Deus para que tire sua vida.
A banda são os reis do thrash, o Metallica. A música, a obra-prima inquestionável “One”, do álbum …And Justice for All (1988). E a história assustadora é baseada em um dos livros mais perturbadores já escritos: Johnny Vai à Guerra (Johnny Got His Gun), de Dalton Trumbo.
O vocalista James Hetfield sempre teve o conceito da música na cabeça: a ideia aterrorizante de estar preso em si mesmo. Foi então que o empresário da banda apresentou a eles o romance Johnny Got His Gun, publicado em 1939. O livro conta a história de Joe Bonham, um jovem soldado da Primeira Guerra Mundial que sobrevive à explosão de uma mina terrestre.
Joe acorda no hospital e percebe que perdeu todos os membros e sentidos. Ele não pode se mover, falar ou ver. A letra de Hetfield descreve essa descoberta horripilante com uma crueza cirúrgica:
Darkness imprisoning me
All that I see
Absolute horror
I cannot live, I cannot die
Trapped in myself, body my holding cell(A escuridão me aprisionando)
(Tudo que eu vejo)(Horror absoluto)
(Eu não posso viver, eu não posso morrer)
(Preso em mim mesmo, meu corpo é minha cela)
Quando o personagem finalmente encontra uma forma de se comunicar com os médicos, batendo a cabeça no travesseiro em código Morse, sua única mensagem é “S.O.S – Matem-me”. É nesse clímax que o Metallica insere sua narrativa mais gráfica e desesperadora:
Landmine has taken my sight
Taken my speech, taken my hearing
Taken my arms, taken my legs
Taken my soul, left me with life in hell(A mina terrestre levou minha visão)
(Levou minha fala, levou minha audição)
(Levou meus braços, levou minhas pernas)
(Levou minha alma, me deixou com uma vida no inferno)
A ponte instrumental antes desse verso, onde Lars Ulrich dispara nos pedais duplos e James Hetfield ataca a guitarra no mesmo andamento, não foi feita apenas para soar “pesada”. Musicalmente, ela representa o som da metralhadora, o caos da guerra e o código Morse desesperado do soldado na cama do hospital. É a música desenhando o pânico.
“One” também foi um marco para o Metallica por outro motivo: foi o primeiro videoclipe da história da banda. Até 1989, eles se recusavam a gravar clipes por acharem que era algo comercial e “vendido”. Mas a história de Johnny Got His Gun exigia ser contada visualmente. Eles compraram os direitos da adaptação cinematográfica do livro, lançada em 1971, e intercalaram as cenas angustiantes do filme com a banda tocando em um armazém escuro.
O resultado não apenas não manchou a reputação do Metallica, como elevou a banda ao estrelato global, rendeu o primeiro Grammy da história da categoria de Heavy Metal, e eternizou “One” como a fusão perfeita entre a agressividade do metal e a empatia pela dor humana.
E aí, curtiu a história? Deixe nos comentários qual clássico do rock você quer ver desvendado na nossa próxima coluna!

Landmine has taken my sight
