por Sam, o surfista veterano
O cheiro no ar já era diferente há dias. Não era cheiro de maresia, era cheiro de poder. O vento assobiava um aviso, e o som do oceano não era de onda quebrando, era um ronco grave, contínuo. A Defesa Civil mandou alerta de ressaca, de onda de mais de 3 metros. O aviso oficial pra quem não sabe ler o céu. Pra gente, que vive disso, o recado já tinha chegado pelo vento.
E aí você desce pra orla e o circo tá montado. A avenida molhada, o mar lambendo o calçadão, e uma multidão de idiotas em cima das pedras, com o celular na mão. Uma selfie com a onda explodindo atrás, o sorrisinho na cara, como se a natureza fosse um parque de diversões. Um espetáculo de estupidez.
O porto de Santos parado. Balsa suspensa. Vento de 80 km/h. Onda de 3 metros e meio não é marola pra foto, é uma porrada que te arrasta e não devolve. E o Zé Mané ali, de chinelo, achando que tem controle da situação. Desrespeito? Não, é ignorância pura. É a arrogância de quem acha que o oceano é uma piscina com borda infinita. A gente, que vive disso, fica de longe. Olhando. Calado. Aprendendo.
Mas essa ressaca veio pra dar um recado. O mar não tá bravo. Ele tá só sendo ele mesmo. E sendo ele mesmo, ele tá limpando a sujeira, levando o lixo que a gente deixou, redesenhando a faixa de areia. Ele veio buscar o que é dele, o espaço que a gente invadiu achando que era nosso. Ele é a única força nesse planeta que ainda bota a gente no nosso devido lugar.
A gente acha que domina a praia com nosso guarda-sol e nossa caixinha de som. Aí o mar sobe três metros e mostra quem é o verdadeiro dono do pico.
O oceano não te deve nada. Você é que deve respeito a ele. SEMPRE.


